quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Capitão Nascimento, o Capitão América brasileiro

Ele é capitão, dá lição de moral, é dedicado e incorruptível, representa o arquétipo mais comum de sua nação, usa uniforme, tem uma arma letal, inspira os jovens, foi melhorado por um programa militar...
Eu poderia estar a pensar em qualquer um dos dois ao dizer isso, e nenhum dos elementos estaria deslocado. Minha intenção não é dizer que um é inspirado no outro, mas mostrar como o Capitão Nascimento ocupa para nós o lugar que o Capitão América ocupa para os Estados Unidos.
A escolha da patente é um elemento crucial, pois a expressão capitão ocupa lugar de destaque na cultura popular, não é como coronel, sargento, ou outras patentes que são associadas ao serviço, o capitão é normalmente associado a um líder, mesmo que de um pequeno grupamento. E por ser pequeno dá a impressão de bem selecionado. Talvez tenha a ver com outras obras anteriores, que nos legaram a idéia cultural de capitão, ou pode ter começado com o Capitão América, mas certamente foram felizes no propósito de criar a imagem de um personagem forte, comandante, mas presente na luta.
O nome "Nascimento" é outra jogada feliz. Não é um nome tão comum, mas é um nome bem brasileiro. E o objetivo de ambos os capitães é representar uma nação. No caso do nosso ele representa internamente, no caso do deles representa externamente, como o mundo vê os Estados Unidos da América, mas também como o estadunidense típico se vê, como americano, simbolo da liberdade, do livre mercado e do direito de ter e portar armas. Da mesma forma o Capitão Nascimento representa o melhor que o brasileiro pode ser, quer dizer, um brasileiro com todas as suas aptidões e habilidades elevadas ao máximo. Nos vemos, e somos vistos por alguns países, como um povo persistente, adaptável e determinado. Quando fomos á Segunda Grande Guerra mostramos coragem absurda para os padrões de outras nações, beirando a insanidade. O Capitão Nascimento resgata um pouco o sentimento daqueles praças e lutavam sem pestanejar. Se ele fosse da Força Aérea Brasileira, ao invés de dizer "senta o dedo" poderia dizer "senta a pua", sem parecer deslocado, pois ele representa, de maneira adaptada, aquele mesmo espirito dos expedicionários. Ou seja, ele é uma síntese da persistência do civil brasileiro, com a determinação e coragem do militar brasileiro, pensado em seu máximo.
Assim como o Capitão América, Nascimento se revolta contra o estado em um dado momento, por perceber que governo e nação se afastaram, e aqueles não defendem mais os interesses desses, e não faz mais sentido para ele, que representa o arquétipo da nação defender trabalhar em prol do governo corrupto, uma vez que este trabalha contra a nação. Ambos tem seu título caçado. Capitão América tem, por meio de leis de patentes e direitos autorais, sua identidade visual retirada, e passada a outro que aceita o trabalho sujo do estado. Capitão Nascimento, que foi promovido, mas continua sendo, no imaginário popular o Capitão Nascimento do primeiro filme, é expulso da polícia, tendo assim, da mesma forma que o Capitão América, sua identidade de super-herói tolhida.
Ambos demonstram a partir disso uma desconfiança perpétua quanto ao estado, o que está perfeitamente de acordo com as duas culturas.
Nos Estados Unidos é comum encontrar placas dizendo "Amo meu país, não confio no meu governo" (em livre tradução. No Brasil é comum a frase "politico é tudo corrupto" ou "político nenhum presta". A diferença se deve no fato de que o brasileiro típico ainda acredita na instituição, pensando que se houverem pessoas de bem no governo o estado será bom, diferente do estadunidense típico que sabe que tudo que o governo faz é sempre em prol de si mesmo.
Eu poderia passar horas comentando os pontos em comum entre os dois personagens, mas creio que isto já é suficiente para dar uma idéia da semelhança na concepção das duas personagens. Certamente que há diferenças gritantes, mas o fundo é comum. E já estava na hora de termos um super-herói brasileiro.

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